DA ARTE DA LOUCURA (QUASE) CONTROLADA

Meu nome de batismo é Marcelo Bolshaw Gomes. Sou solteiro, não tenho filhos. Trabalho como professor universitário e me divirto como  webdesigner amador. Nasci dia 12 de janeiro de 1961, às 23h25min (18o e 51’ de tempo sideral), na latitude de meu próprio signo, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Sou, assim, um super-capricorniano (com o Sol e Saturno em Capricórnio) com Ascendente em Libra e a Lua em Escorpião (em conjunção com Netuno).

Nos búzios, descobri que sou filho de Ogum Xeroquê, entidade que durante o primeiro semestre irradia as qualidades do orixá da guerra e na segunda metade do ano passa a irradiar as qualidades de Exu. Com o passar dos anos, associei, através da observação, essas duas influências aos meus principais aspectos astrológicos. De forma que a grande conjunção da Casa Quatro (Sol, Saturno, Júpiter e Mercúrio em Capricórnio) corresponde ao “meu Ogum” e os vários aspectos associados à Lua (conjunção com Netuno, quadraturas com Urano/Plutão e Vênus) com “meu Exu”.

Chamo de O Hermeneuta ao Ogum/Capricórnio, que representa a parcela mais sábia e compreensiva de minha personalidade, um professor platônico que desenvolve uma reflexão filosófica sobre os símbolos e arquétipos. Por outro lado, denomino de O Encantador de Serpentes ao Exu-Escorpião e à faceta mais sedutora e política de minha personalidade, um jornalista deleuziano que desenvolve uma luta quixotesca e microfísica contra o poder. Como tenho uma domificação astrológica invertida, com cada signo a 180o de sua casa, faço e vejo sempre as coisas pelo avesso.

No sistema do Eneagrama, meu ego tem uma fixação no número seis, subtipo contrafóbico, o que dá um tom crítico ao idealismo filosófico do Hermeneuta e um humor irascível e ácido ao já rebelde e intempestivo Encantador de Serpentes (1). Desenvolvi assim uma esquizofrenia intelectual, em que uma parte de minha personalidade estudava o universo simbólico e a outra conspirava para conquistar o poder.

·        O Simbólico e o Científico

Gaston Bachelard (1954) descobriu nesta aparente contradição um valioso método de interpretação dialógica: alternar o estudo científico dos signos com a imaginação criativa, a meditação sobre o conteúdo simbólico da linguagem. Temos, assim, duas faces da produção intelectual: a ‘diurna’ da exigência de objetividade do pensamento lógico; e a ‘noturna’, onde a subjetividade mergulha no inconsciente. Dessa forma, por um lado, o 'conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão', e, por outro, é a intuição e a imaginação criativa que são como alimentos que renovam a atividade crítica do pensamento.

Alguns cientistas atuais (como David Bohn) identificam essas duas facetas da atividade mental como um produto direto do funcionamento dos dois hemisférios cerebrais. Gilbert Durand (1974) observará que o pensamento sempre oscilou entre essas duas possibilidades paradigmáticas opostas e complementares: a de exteriorizar o mais exatamente possível sua representação pessoal do universo, a imaginação simbólica, ou por de lado sua percepção pessoal em função das convenções necessárias à comunicação, à participação e à identidade do seu grupo em torno de uma representação coletiva da realidade, a representação sígnica. 


Estratégia Arqueológica

Estratégia Teleológica

SIGNO = Consciência Social (Durkhein) + Inconsciente Individual (Freud)

SÍMBOLO = Consciência Individual (Hegel) + Inconsciente Coletivo (Jung)

Dialética entre passado e presente, a História

Dialética entre presente e o futuro, o virutal

Causas, origem, determinantes

Finalidade, sentido, possibilidades

Estudo das Necessidades

Estudo das Probabilidades


Porém foi Paul Ricoeur que, sobrepondo as duas óticas em um único olhar, melhor definiu essa polaridade cognitiva como uma luta de duas estratégias discursivas opostas: a arqueológica (ou explicativa) e a teleológica (ou compreensiva). A arqueológica, voltada para o passado, privilegiaria o estudo das ‘causas’ e das ‘origens’ que explicam o presente. E a teleológica, remitificadora da realidade, seria voltada para o futuro.  

Assim, por exemplo, o sonho, além de expressão involuntária de um problema passado, é também uma solução voltada para o futuro. Para Freud, ou para perspectiva arqueológica, o simbólico esconde o passado; para Jung e a estratégia teleológica, o simbólico revela o devir. E para Ricoeur e para o método duplo de interpretação dialógica de Ricoeur, as duas concepções são complementares e necessárias.

Porém, em um segundo momento (2), a partir de redefinição da noção de símbolo como duplo sentido, sua definição de hermenêutica evoluirá para idéia de uma Teoria Geral da Interpretação dos Discursos, a partir da contradição dialética entre Explicação e Compreensão.


DIALÉTICA DA INTERPRETAÇÃO

 

REFERÊNCIA

MENSAGEM

EMISSOR

EXPLICAÇÃO

 

RECEPTOR

 

COMPREENSÃO


'Explicar' é quando tentamos descrever um fato ou objeto externo (a referência), em que nossas hipóteses, leis e teorias se submetem à verificação empírica da realidade, quando temos transmitir uma informação clara sobre algo. Para Ricoeur, a Explicação é uma operação analítica das formas discursivas. Já 'compreender' é uma operação sintética de significação do conteúdo proposicional dos discursos. Assim, a Compreensão é o entendimento semântico do que as mensagens significam. A dialética entre Explicação e Compreensão tem um caráter tanto cognitivo quanto epistemológico. No ponto de vista cognitivo, ela representa a relação dos interlocutores do discurso com a mensagem e sua referência; do ponto de vista epistemológico, a Explicação tende à objetividade científica e ao paradigma de estudo das ciências naturais, enquanto a Compreensão tende mais para ciências humanas e ao estudo da subjetividade.

E assim, em Ricoeur, a dialética da interpretação oscila entre os pólos opostos da Explicação e da Compreensão.

·        Formação Intelectual

Desde os tempos de minha juventude em Natal, que o estudo sobre o aspecto simbólico da linguagem me apaixona, fazendo com que, apesar dos tempos sombrios da ditadura militar, crescesse em mim o desejo de Reencantamento do Mundo Moderno. Mais do que uma alienação da realidade social, a Contracultura foi para minha geração um alento em meio desesperador vazio cultural imposto pela censura.

Em 1978, passei em primeiro lugar para o Curso de Jornalismo, da UFRN, mas motivado pelo clima de redemocratização do país, abandonei o curso e fui morar no Rio de Janeiro. De 1979 a 82, cumpri rigorosamente a iniciação prescrita pelo jornalista ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda: “Todo brasileiro com coração entra no Partido Comunista aos 18 anos; todo brasileiro com cabeça abandona o Partido Comunista aos 21”. 

Logo após este breve namoro com o marxismo, em que trabalhei em jornais de esquerda e militei no movimento estudantil, e, posteriormente, durante minha descoberta prática da psicanálise e de Freud, suspeitei que o pensamento objetivo que explica a vida social a partir das necessidades econômicas e instintivas nunca chega a compreensão real das motivações humanas. As noções de superestrutura marxista e de sublimação dos desejos reprimidos de Freud eram, então, as “peças chaves” de um enorme quebra-cabeça conceitual para explicar a relação da cultura com o aspecto pré-cognitivo da linguagem.

Retomando os estudos após este período de militância política, e considerando as semióticas perciana e estruturalista, racionalistas e insuficientes para explicar o domínio do Simbólico - manifesto nos campos do sagrado, dos sonhos e da mitologia – enveredei pela leitura dos clássicos C. G. Jung, G. Bachelard, G. Durand, M. Eliade e de outros pensadores teleológicos. Para esses autores, o Sentido nasce e se projeta para além de sua representação sígnica.

Porém, paradoxalmente, também havia uma arrebatadora paixão pelo pensamento político pós-moderno de Foucault, Guattari e Deleuze – que é radicalmente contrário à idéia de qualquer forma representação. Fruto desse conflito, na monografia de graduação em Comunicação Social, no Rio de Janeiro, surgiram minhas primeiras tentativas teóricas de pensar o aspecto pré-cognitivo da linguagem dentro de um quadro de referências científicas contemporâneas, escrevendo sobre o fenômeno teleológico da adivinhação da forma mais arqueológica possível.

Em 1986, tive o privilégio de conhecer o padrinho Sebastião Mota e de me fardar, no dia de São João Batista, na Doutrina do Santo Daime. Dentre as muitas mudanças desencadeadas por este fato, ressalto uma reaproximação espiritual de minha família e das práticas mediúnicas kardecistas em que fui educado. Em 1988, no dia 17 de novembro, quando a Umbanda completava exatamente seus 80 anos, cheguei à casa do Caboclo Tupinambá e também me iniciei no culto.

Ainda a partir período, dediquei-me ao estudo teórico e prático das diversas correntes de pensamento esotérico, lendo criticamente livros de diferentes tendências e freqüentando várias modalidades de terapias alternativas. Ressalto, de minha Coleção de Eventos Memoráveis: a) as inúmeras experiências psicológicas e espirituais de grupo de quarto caminho com Vera Novelo e Laerte Willmann; b) uma semana de reestruturação biográfica que fiz em uma clínica paulista de orientação antroposófica – que, posteriormente, se tornou base de meu trabalho pessoal de recapitulação; e c) os anos que morei na Amazônia, trabalhando em condições e atividades que variaram desde professor primário no interior da floresta até editor de telejornal em Rio Branco.

E também aqui me dividi entre Ser (o que realmente sou) e Dever Ser (eticamente um pouco melhor). Em meu hinário, A Árvore da Vida, essa contradição entre Ser e Dever Ser assume a forma do encontro do arquétipo de São João Evangelista (o santo hermeneuta com que me identifico) com a doutrinação do espírito de Alesteir Crowley (O Encantador de Serpentes).

E mais: a contradição esquizofrênica teórica entre diferentes formas de pensar dos tempos de faculdade se aprofundava ainda mais no esoterismo agora entre os diversos platonismos que estudam do simbolismo (Alquimia, Cabala, Ocultismo) e minha contraditória preferência pelos autores de tendência agnóstica: Krisnamurti, Rudolf Steiner, Gurdjieff, Castaneda e Rajneesh.

O primeiro resultado desta pesquisa heterodoxa, o livro A Estrada Iluminada - o Tarô como mapa do Inconsciente não é um trabalho propriamente teórico ou acadêmico. Trata-se de uma adaptação das 78 imagens\conceitos das cartas do baralho divinatório do Tarô em três tabuleiros fixos, formando, assim, dentro de uma nova dinâmica lúdica, um novo jogo: um jogo de salão, grupal e competitivo, e não mais um jogo divinatório individual. Durante seu desenvolvimento, os participantes empreendem a jornada arquetípica do herói, enfrentando diferentes situações e questões representativas dos impasses de suas vidas através das imagens das cartas. Minha intenção era, nesse primeiro trabalho, esboçar a estrutura simbólica do Tarô como uma cartografia da psique humana, subdividindo suas cartas em três grupos distintos, representando diferentes ‘profundidades’ do Inconsciente diante de uma única realidade.  

Em minha dissertação de mestrado em Ciências Sociais, sob a orientação da professora doutora Maria da Conceição de Almeida, O Hermeneuta - Uma introdução ao estudo de Si (3), voltei a discutir a distinção entre relações pessoais, interpessoais e impessoais propondo uma teoria da interpretação a partir de sucessivas leituras da linguagem: a palavra mata, o símbolo enlouquece, o exemplo perverte e apenas o arquétipo realmente explica e compreende a linguagem - pois ao comparar o real ao ideal, revela como a vida extrapola seus modelos.

Também desenvolvi essas idéias em alguns hipertextos sobre o Simbólico como O Espelho de Oxum e Um Estudo Hermenêutico do Tarô. Entretanto, nesses trabalhos, resvalei, reconheço, para uma concepção um pouco ‘platônica’ e ‘gnóstica’ das idéias ao defender o caráter transcendente dos arquétipos de uma forma demasiado idealista e harmônica, como se eles fossem modelos estruturantes da interpretação. Inicialmente, tentei que reformular a noção de “Arquétipo” (4). 

Mas, em uma reviravolta arqueológica do Encantador de Serpentes, no livro Um Mapa, Uma Bússola – Hipertexto, Complexidade e Eneagrama (5), substitui definitivamente a noção de Arquétipo pela de Hipertexto. Comparando o livro e meus trabalhos mais recentes (6) à dissertação, no entanto, percebe-se que no essencial nada mudou: trata-se de reconhecer que além do Signo e do conhecimento do Eu, do conhecimento simbólico de Si e do conhecimento paradigmático de Mim, realmente existe um conhecimento do conhecimento. Porém, essa consciência não é constituída por formas universais transcendentes, mas sim por incontáveis conflitos e acordos que se formam e desenvolvem através da troca de informações em padrões recorrentes além do territorial (o Hipertexto). A idéia de 'arquétipo' como uma forma recorrente no tempo-espaço ganha uma outra dimensão. Poderíamos dizer que o Arquétipo está para o Hipertexto assim como o Signo semiótico está para a frase na Análise do Discurso, formada de sujeito, verbo e objeto: passamos do atomismo à linguagem quântica. Os arquétipos, nessa nova acepção, são apenas idéias agenciadas em rede.

O “quarto nível”, assim, é um sentido construído a partir da sinergia de vontades em rede. Assim, as idéias são trans-históricas e trans-pessoais, mas também são condicionadas por limites culturais, epistemológicos e cognitivos; são instrumentos e produtos de uma realidade que parcialmente completam, mas não ultrapassam totalmente.  Na verdade, troquei o nível arquetípico pelo Eneagrama, o diagrama Sufi da estrela de nove pontas - utilizado como modelo matemático de sistema complexo para processos circulares de três etapas e de três níveis. O texto Uma Bússola Complexa marca essa mudança. Mas, com isso, o virtual tomou o lugar do simbólico; a imanência ocupou o espaço da transcendência; o ciberespaço substituiu o inconsciente coletivo; a hermenêutica transformou-se em arqueologia.

Esquizofrenia Filosófica

O certo é que ainda estou muito distante de uma síntese entre dois modos de pensar irredutíveis (embora cada um pretenda incluir o outro) e que há várias diferenças radicais entre os trabalhos dO Hermeneuta e dO Encantador de Serpentes.

O Hermeneuta é uma homenagem ao teólogo protestante Paul Ricoeur. Embora leve em conta uma estratégia de interpretação arqueológica em seu seio, essa forma de pensar é abertamente idealista e platônica. Seus textos sobre o simbolismo fazem parte da Nova Gnose (termo criado pejorativamente por Edgar Morin para o esoterismo da contracultura e retomado positivamente por Samuel Aour Weiner). Já O Encantador de Serpentes é produto da esquizoanálise de minhas condições imediatas de vida. Ele representa minha luta de sobrevivência à implosão do mundo moderno e pela construção de uma nova Espiritualidade. Essa forma de espiritualidade anti-platônica tem duas características principais em relação à Nova Gnose:

  1. A ênfase no autoconhecimento. O principal para essa espiritualidade é a consciência diante de seus condicionamentos físicos, emocionais e mentais. Todas idéias, imagens e crenças são ilusões; todos os rituais, cultos e cerimônias são auto-hipnose. A espiritualidade é a meta de todas religiões, e, por isso mesmo, está acima e além de quaisquer dispositivos mnemônicos de domesticação do desejo.

  2. A segunda morte. Ao contrário da tradição reencarnacionista, essa espiritualidade contemporânea acredita que a morte pode ser o fim definitivo da existência. Uma das conseqüências diretas dessa “segunda morte” é a ética do guerreiro, em que a idéia de economia de energia é a chave para se escapar da fatalidade de um destino trágico.

Seria preciso escrever um livro só sobre essa afinidade arqueológica entre autores esotéricos contemporâneos tão diferentes quanto Krisnamurti, Steiner, Gurdjieff, Castaneda e Rajneesh. E é bem provável que os discípulos e admiradores desses autores não reconheçam essa afinidade. Mas há uma história que pode nos ajudar a compreender essa estranha afinidade entre pensadores tão diversos e quais as diferenças estruturais entre a Nova Gnose e a Espiritualidade Contemporânea.

Para por em prática a teoria dos Avatares, segundo a qual um ser iluminado nascia para salvar o espírito da humanidade há cada dois mil anos, descrita na Doutrina Secreta de Madame Blavatsky, sua principal discípula e sucessora na direção da Ordem Teosófica, Annie Besant, se colocou a missão de localizar e preparar a pessoa que seria novo Avatar. Encontrou um jovem indiano e o levou para estudar na Inglaterra. Esse fato teve como conseqüência imediata a dissidência aberta pelo alemão Rudolf Steiner e o aparecimento da Antroposofia.

Porém, em 1968, poucos meses antes de assumir a direção internacional de um verdadeiro império organizado em sua volta, Krisnamurti desistiu de cumprir o destino para o qual havia sido educado e iniciou uma cruzada a favor da meditação e do desenvolvimento da consciência acima de qualquer sistema de crenças e rituais. Este “anarquismo espiritual”, no entanto, não agradou muito a Bhagwan Shree Rajneesh. Para ele, Krisnamurti fraquejou e não recebeu o espírito solar a que estava destinado a incorporar. Assim, coube a ele concluir essa missão e ser o Avatar, passando a se chamar de Oslo (Oceano).

·        Espiritualidade Contemporânea

Segundo a tradição que Bodidharma, o monge que introduziu o budismo da China, respondeu laconicamente ao Imperador daquele país quando esse lhe perguntou qual o ensinamento sagrado que ele professava: “Nada sagrado: espaços abertos”. (Em outras traduções: “Nada sagrado: um grande vazio”)

Todas as reformas religiosas que conhecemos parecem seguir um mesmo padrão anti-teleológico: Zoroastro (ou Zaratrusta) em relação ao madeísmo iraniano, Sidarta Gautama em relação ao hinduismo, Confúcio em relação ao taoísmo, Jesus Cristo em relação ao judaísmo, Maomé e Lutero em relação ao Cristianismo, todos empreendem reformas contra a imagem (da representação múltipla de Deus) em nome da pureza da fé.

Nesse sentido, podemos dizer que Krisnamurti foi, não o Avatar predestinado da Era de Aquário, mas sim o reformador da religiosidade contemporânea. Assim, não só por romper com a gnose teosófica, mas, sobretudo, pela defesa da liberdade da consciência, Krisnamurti é uma das principais expressões dessa nova Espiritualidade esotérica.

Apesar de não se enquadrar completamente em nossa definição anti-gnóstica (ênfase no autoconhecimento para escapar à segunda morte), Rudolf Steiner também deve ser incluído entre os pensadores esotéricos arqueológicos por dois motivos. Primeiro: a Antroposofia é uma interpretação arqueológica da gnose teosófica. No livro Ciência Oculta, Steiner descreve uma cosmologia e história da terra a partir da observação extra-sensorial da realidade. E, em outros livros, essa cosmogonia (baseada simultaneamente nas quatro idades da Terra e nos quatro corpos do eu inferior) se desdobra e fundamenta em suas várias aplicações práticas diferentes importantes: pedagogia Waldorf, psicologia biográfica, agricultura biodinâmica, medicina antroposófica, etc ...

O segundo motivo é a sua cristologia. Para Steiner, Jesus foi um homem até ser batizado nas águas do Jordão, quando encarnou o Cristo, o espírito do Sol. Esta tese sobre o caráter iniciático da dupla natureza do Cristo (uma sábia esta posição intermediária entre o arquétipo e o homem que o encarna) não é nova: Segundo Mircea Eliade, no Dicionário das Religiões, pág.106, esta tese, também conhecida como “heresia adocionista” durante a Idade Média, remonta ao próprio Pedro e compreende os ebionitas, que recusavam a teologia de Paulo. Encontra-se, portanto, bem na gênesis do pólo anti-gnóstico no interior do Cristianismo.  Mas, recolocada no contexto do esoterismo contemporâneo, esta tese contrasta frontalmente com a teoria hinduísta dos avatares da Teosofia. Segundo Antroposofia, “Jesus” é superior aos outros avatares, porque o “Cristo” representa a encarnação do verbo, a união do logos solar com a esfera terrestre. E assim Steiner é meio-arqueológico e meio-teleológico, ao mesmo tempo.

Mas se enquadramos a Antroposofia na espiritualidade contemporânea, mesmo sem ela cumprir todos seus requisitos; a inclusão de Rajneesh (e de sua adaptação ocidental das práticas sexuais do Tantra (7), por sua vez, nessa lista dos agnósticos também é uma discussão bastante complexa e polêmica - embora seu pensamento, pelo menos em seus primeiros livros, corresponda plenamente às características que definimos.

Não podemos aqui entrar no mérito das idéias de Rajneesh nem de sua pretensão de ser o Avatar da Nova Era. Entretanto, há algumas de suas contribuições são inegavelmente novas e muito importantes – como seu marketing e sua concepção de organização em rede – o que geralmente passa despercebidos tanto de seus críticos quanto de seus defensores. Além do Tantra como carro chefe, Rajneesh relançou toda uma série de produtos esotéricos de outras correntes e tradições com sua grife (tarô do Oslo, massagem do Oslo, dança circular do Oslo, Reike do Oslo, meditações do Oslo, etc). Mas, ao invés de uma nova síntese dessas técnicas e práticas, Rajneesh criou uma franquia.

Krisnamurti desconfiava de qualquer forma de organização com finalidade espiritual e Steiner sonhava com uma reforma institucional na sociedade, porém foi Rajneesh quem efetivamente organizou o esoterismo em rede, descentralizadamente, mas como uma identidade transnacional de uma extensão planetária. E isto já é um feito para lá de significativo!

Já as idéias do místico armênio G. Gurdjieff não deixam margens para quaisquer dúvidas de seu caráter anti-gnóstico, se aproximando bastante do pensamento pós-moderno de Gilles Deleuze. Para ambos, os homens são apenas máquinas dentro de máquinas, engrenagens inconscientes de seu papel e de seu funcionamento. Para Gurdjieff esta bio-máquina tinha três entradas e três saídas, produzindo três ciclos cibernéticos de reatroalimentaçáo intricados em um mesmo processo. 


Gurdjieff

Input

Output

Feedback

Elemento

1ª Oitava

Alimento

Fezes

Biosfera

Terra

Líquido

Urina

Hidrosfera

Água

2ª Oitava

Oxigênio

Gás carbônico

Atmosfera

Ar

3ª Oitava

Luz e Som

Idéias

Noosfera

Fogo


Gurdjieff utilizava o modelo do Eneagrama como uma síntese do universo, visto como um processo de três níveis em três etapas. A aplicação deste modelo ao corpo humano resultava na teoria das três oitavas (ou eneagramas secundários) e da associação das atividades biológicas de alimentação, respiração e percepção através de vibrações audiovisuais como os três principais processos da máquina humana a serem desautomatizados. Esses processos, por sua vez, seriam interdependentes dentro de uma grande oitava (ou eneagrama principal). Realizar a grande oitava através da desmecanização das três oitavas menores, para Gurdjieff e seus seguidores, é a principal finalidade humana no ecossistema, nossa missão fotossintética e espiritual: a produção do hidrogênio número um. Nesta lógica, aqueles que não conseguem chegar a estágios de consciência superiores, capaz de produzir essa refinada substância alquímica (muitas vezes comparadas aos sentimentos nobres como o amor) terão seus espíritos fatalmente reabsorvidos pela Lua, serão ceifados como árvores estéreis pelo universo.

Muitos outros autores esotéricos contemporâneos poderiam ser analisados e discutidos aqui, porém, em minha perspectiva, o mais importante de todos pensadores da espiritualidade atual - ou o único em que encontrei uma saída consistente para minha esquizofrenia cognitiva entre “Arquê” e “Telos”, entre a investigação das origens e o estudo das finalidades - foi o antropólogo Carlos Castaneda.

Não vamos resumir aqui as idéias de Castaneda, tirando do leitor o prazer e a obrigação de conhece-las diretamente, mas sim aproxima-las das noções de explicação e compreensão hermenêutica, sendo que, ao invés de serem aplicadas aos discursos escritos e audiovisuais, são utilizadas para a acumular energia e modificar a própria vida.

Espreita + Sonhar = Arte da Loucura Controlada.

Nesse sentido, a arte da Espreita corresponde à explicação histórica; ao transcorrer gradativo dos acontecimentos registrados pela memória; e a uma dialética entre passado e presente; enquanto, a arte do sonhar corresponde à compreensão do “Espelho”; ao eterno presente do mundo virtualizado das idéias; e a uma dialética entre presente e futuro. A diferença é, repito, que se não trata de um modo de investigação, mas de uma ética de vida para escapar à segunda morte, ou de uma arte, como o próprio Castaneda um dia definiu, a arte da loucura controlada.


NOTAS

(1) Tentei ainda dar vida a um terceiro personagem-síntese, O Traficante de Idéias, que corresponde a um terceiro grupo de aspectos astrológicos (a oposição entre Vênus e Plutão paralela ao eixo dos nódulos lunares), mas o heterônimo nunca ganhou vida própria. A não ser por um livro de poemas juvenis «http://members.tripod.com/ohermeneuta/POESIA.html» reeditados 20 anos depois para web.

(2) RICOEUR, P. Teoria da Interpretação. Lisboa: Edições 70, 1999.

(3) GOMES, M. B. O Hermeneuta - Uma introdução ao estudo de Si.  Natal: UFRN, 1997.

(4) Linguagens Imaginais e Complexidade – in CASTRO, G. (org.) Ensaios de Complexidade. Natal: Edufrn, 1998. Página 159.

(5) GOMES, M. B. Um Mapa, Uma Bússola – Hipertexto, Complexidade e Eneagrama. Rio de Janeiro, Editora Mileto, 2001. O correto seria dizer que a primeira parte do livro, O Tapete, deve ser atribuída ao Encantador de Serpentes e a segunda, A Roda do Tempo, ao Hermeneuta.

(6) GOMES, M. B. O Círculo das Virtudes - Cibernética aplicada à Comunicação. «http://ocirculodasvirtudes.cjb.net»

(7) Uma adaptação de via dupla, pois tentando ao tentar reinserir o sexo como prática espiritual no Ocidental, Rajneesh tornou a “arte erótica” do Oriente uma terapia catártica, isto é, como parte de nossa neurótica “ciência sexual” – para usar as noções de Michel Foucault.

ermeneuta.

(6) GOMES, M. B. O Círculo das Virtudes - Cibernética aplicada à Comunicação. «http://ocirculodasvirtudes.cjb.net»

(7) Uma adaptação de via dupla, pois tentando ao tentar reinserir o sexo como prática espiritual no Ocidental, Rajneesh tornou a “arte erótica” do Oriente uma terapia catártica, isto é, como parte de nossa neurótica “ciência sexual” – para usar as noções de Michel Foucault.