APRENDIZ
DE JORNALISTA
JORNAL ONLINE LABORATÓRIO
DO DECOM/UFRN
ACADEMIAS E ARTES MARCIAIS
Reportagem
por TIAGO BOEIRA
Primeiro, surgiu como uma arte marcial, hoje é visto como causador de muita violência e do surgimento de gangues, que assustam quem freqüenta a noite em Natal e, principalmente, os pais de adolescentes. O jiu-jitsu é um dos responsáveis diretos pela preocupação dos pais e do Juizado de Menores, o último está exigindo que os menores de idade tenham autorização dos pais para poder brincar no Carnatal, que acontecerá entre os dias 2 e 5 de dezembro de 1999.
Os casos de conflito entre academias de jiu-jitsu têm crescido nos últimos
3 anos. Em novembro de 98 houve um confronto entre lutadores em uma casa de
shows, onde a segurança era mínima, assim como o número de pessoas presentes.
Uma semana depois, no mesmo local, a segurança foi reforçada – tendo presença,
inclusive, da tropa de choque da Polícia Militar -, para atender a demanda de
gente presente, assim como, para conter uma possível revanche entre os
lutadores. Naquela ocasião não houve nenhuma ocorrência.
Pelo que se vê, essas brigas só acontecem quando o local não tem a
segurança adequada. Prova disso, foi o show da banda Charlie Brown Jr., em um
hotel da Via Costeira. Os promotores do evento pecaram no esquema de segurança.
Os brigões “fizeram a festa”, e os integrantes da banda pararam o show
algumas vezes, chamando a segurança, em vão. Bastou esse acontecimento para
que, todas as festas e show realizados após este fossem recheados de segurança.
Um exemplo foi o show da banda Raimundos, acontecido no Centro de Convenções,
os lutadores estavam todos lá, mas junto deles estava a segurança e as câmeras
da polícia, que inibiram qualquer tipo de confusão.
A preocupação maior ainda está por vir, o Carnatal se aproxima e a
informação que se tem é que as duas academias rivais compraram abadás no
mesmo bloco. Mas a Federação de Jiu-Jitsu do Rio Grande do Norte (FJJ),
organizou uma equipe de 10 professores do esporte para fazer uma espécie de
pente fino nos blocos, para pegar os brigões e bani-los da modalidade. Banir do
esporte quem gosta de confusão não implica que as brigas deixarão de
acontecer, por isso, os professores das academias Nova União (antiga Kimura),
Kombate Real, Kioto e a Associação Potiguar de Artes Marciais (Apam) vêm se
reunindo, todas as semanas, para tentar encontrar solução para o problema.
“Queremos acabar com essa imagem distorcida do jiu-jitsu”, defende o
professor da Nova União, Jair Lourenço.
Entrevista
por CARLOS JR. E ALBINO
Carlos
Jr. e Albino: O que leva um jovem a
praticar o jiu-jitsu?
Praticante:
Acho que é a forma como o esporte vem sendo
divulgado. Tem a questão de trabalhar o corpo, a obrigação que o sujeito tem
de ficar forte para ser mais bonito. Talvez seja isso o que leva uma pessoa a
treinar.
C. e
A.: E a violência urbana, contribui para a prática
do jiu-jitsu, uma arte de defesa pessoal?
P.: Não,,, Acho que a pergunta já está direcionada
para outra coisa. A violência urbana existe há muito tempo e é conseqüência
de inúmeros fatores. Não creio que o jiu-jitsu esteja necessariamente ligado a
isso.
C. e
A.: Em relação à força, o jiu-jitsu é a arte
marcial mais eficiente?
P.: Não, ele não é uma arte marcial de impacto. O
praticante não se machuca com freqüência por socos ou chutes, pelo contrário,
consegue imobilizar o adversário aplicando uma série de “chaves” que
causam dor e/ou sufocamento. Não existe um golpe de impacto.
C. e
A.: Num combate, um praticante de outra arte marcial
tem condições de vencer um praticante de jiu-jitsu?
P.: As chances eu diria que são relativamente
pequenas, pois as regras do jiu-jitsu permitem golpes baixos, enquanto que na
maioria dos outros esportes isso é proibido. Por isso, numa luta o praticante
de jiu-jitsu ganha vantagens.
C. e
A.: Então quer dizer que o praticante de jiu-jitsu não
“apanha” de ninguém?
P.: Pode ”apanhar”. O que eu quero ressaltar é a
maior eficiência do jiu-jitsu. A atitude do atleta é independente da arte
marcial.
C. e
A.: Por que as pessoas que praticam jiu-jitsu
geralmente estão envolvidas em confusões?
P.: Nos últimos anos o jiu-jitsu tem sido associado
ao Vale-tudo. Muitos atletas vão praticar jiu-jitsu para disputar campeonatos
de Vale-tudo e outros praticam com o intuito de estarem “preparados” para
qualquer confusão, e estes acabam chamando mais a atenção. Existe o fenômeno
da violência, não vou negar, mas não é tão grande quanto se mostra. São
sempre os mesmos grupos repetindo os mesmos procedimentos.
C. e
A.: E as pessoas que brigam em bares e festas praticam
Vale-tudo?
P.: Não acho que tenha alguma relação, porque as
pessoas que praticam Vale-tudo são altamente técnicas e têm um compromisso
muito grande com o jiu-jitsu.
C. e
A.: Existe um incentivo por parte dos professores de
jiu-jitsu para que seus alunos lutem em festas e lugares públicos ou essas
confusões são provocadas pela vontade própria dos alunos?
P.: Acho que há sete, oito anos atrás, existia um
incentivo por parte de um ou dois professores para que seus alunos usassem o
jiu-jitsu para brigar na rua. Mas, de uns anos pra cá, outras pessoas começaram
a participar de um movimento, que eu faço parte, que é contra o incentivo de
brigas e até recriminam quem começa a falar em briga. Na academia, os atletas
considerados melhores não são aqueles que brigam fora da academia, e sim,
aqueles que ganham campeonatos e são atletas de destaque na parte técnica.
C. e
A.: Quais medidas devem ser tomadas para mudar essa
imagem do jiu-jitsu, em relação a violência?
P.: A primeira medida é que os alunos tenham consciência
e desassociem o esporte da violência, assim como, a comunidade. Em segundo
lugar, acho que a medida mais importante é cadastrar todos os alunos de
academias, com algum tipo de avaliação e supervisão, identificando quem suja
o nome do esporte, o que creio que sejam poucos. E esses poucos sempre brigam em
locais freqüentados pela burguesia da cidade e, que acaba tendo um enfoque
maior da imprensa. Em terceiro lugar, deve-se tentar resolver as desavenças
pessoais entre os alunos de academias diferentes. É isso o que tenho pra dizer.
C. e
A.: De onde vem essa rixa das duas maiores academias,
que, por sinal, são de elite na cidade?
P.: Não é uma coisa muito clara. O que posso dizer é
que tudo indica que são questões pessoais. Não posso dizer que é o fato, mas
tudo indica que seja isso.
C. e
A.: Como você vê a produção de atletas no RN e como
está a presença dos lutadores do estado em competições nacionais?
P.: É um fato, o jiu-jitsu do RN é um dos melhores do
Brasil, é conceituado, ganha todos os Norte-Nordeste. Os atletas são bem
conhecidos no Nordeste e estão conseguindo respeito nacional. Os resultados só
não são melhores em virtude da falta de patrocínio. Se tivéssemos
possibilidade, Natal seria um dos grandes pólos do jiu-jitsu no Brasil.