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O que é poder

 Ricardo Fagundes (*)

A palavra  “poder” em nossa sociedade está muitas vezes revestida de um caráter pernicioso, caráter este que teria sido fruto do acúmulo das mais variadas teorias políticas e filosóficas durante o decorrer do tempo. E é com o intuito de retirar do leitor este caráter, que Gerard Lebrun vai percorrer e analisar algumas dessas teorias e filosofias.

No primeiro capítulo de seu livro, Lebrun discute conceitos como: força, potência e poder. A tese defendida por ele vai de encontro à teoria do sociólogo americano Talcon Parsons, para este, o poder não é basicamente está em condições de impor a própria vontade contra qualquer resistência, e sim, dispor de uma autoridade sem que esta implique numa idéia de coerção. Já Gerard, acredita que os homens só  respeitam a autoridade porque sabem que uma infração implica em uma punição; ele defende ainda que nenhuma organização política, pelo menos moderna, poderia existir sem haver dominação. Percebemos então, que, embora exponha na introdução de seu livro  não pretender agradar ou desagradar qualquer ideologia, nos capítulos seguintes,  o autor se mostra bem favorável a teoria da Soberania defendida por Hobbes em detrimento das demais.

Hobbes, apesar de ter sido leitor de Aristóteles, se opôs às idéias deste, de que o homem é um ser político e social e  de que a república seria uma união  destes para viverem bem e feliz. Para ele o homem era na verdade um ser apolítico e anti-social (o homem é lobo do homem), assim, defendia que a República (Leviatã) deveria ser instalada com a finalidade de proteger os homens do estado natural - estado onde a vida seria uma guerra de todos contra todos -  porém para que isso se concretizasse,  tornar-se-ia necessário, que todo  homem abrisse mãos de seus direitos e estabelecesse um contrato garantido pelo soberano.

Para sustentar esta tese, Lebrun vai utilizar como estratégia rebater todas as críticas feitas pelas demais filosofias e mostrar que estas, só discutem os pormenores mantendo a essência da teoria hobessiana. No capítulo “O Leviatã e o Estado burguês”, podemos constatar isso com mais clareza. Nele a discussão se dá em torno da crítica feita por Macpherson de que o modelo de Hobbes foi criado para defender a economia de mercado. Lebrun irá subverter a tese de Macpherson e mostrar que na verdade é  o modelo de Locke que irá defender a aquele tipo de economia. Para isso ele se vale de argumentos  como: reconhecer que a teoria da soberania é um modelo político que, seguramente, supunha o surgimento ou a existência de uma sociedade mercantil, Contudo irá defender que Hobbes instaurou um modelo de dominação política que é condição essencial para o estabelecimento de uma sociedade moderna, assim, o estado liberal seria uma figura que poderia está contido neste modelo, apesar de ser uma das mais contrárias ao espírito de Hobbes. Argumenta ainda, que Locke subverteu Hobbes, pois para o primeiro há incompatibilidade entre monarquia absoluta e estado civil, enquanto para o segundo não.

Embora defenda sua tese com bons argumentos durante a maior parte do livro, há momentos que Lebrun “peca” pela manutenção de uma postura radical. Mesmo contra críticas bem estruturadas, ele tentará, em vão, convencer o seu leitor ser a teoria hobbesiana a mais correta, ou necessária. Acusada de ser uma mera apologia ao despotismo, Hobbes será defendido por Lebrun com dois  argumentos não convincentes. Para ele os críticos esquecem que: o soberano é a única desordem eficaz e que ele tem como obrigação, zelar pela vida boa e cômoda dos súditos e pela sua segurança. Assim, caso não satisfaça as exigências mínimas da população ele não governará por muito tempo. Todavia Lebrun parece não levar em consideração, que muitas vezes, a população não tem consciência de seus direitos mínimos e conseqüentemente não pode reivindica-los ao seu “soberano”.

Na verdade o que podemos perceber em seu livro é que, Lebrun se propôs a retira do leitor o caráter maléfico da palavra “poder”, entretanto acabou defendendo uma filosofia que, se não é foi a grande responsável por esta visão nociva, certamente foi uma das que mais contribuiu para que ela se estabelecesse.